Viagem | Pelas bordas do mundo.


Dentro da gente há um outro que perseguimos
durante toda a vida. Penso que é importante a
busca permanente de tudo que está do
outro lado do visível e do que
chamamos de realidade.”
JÚLIO CORTAZAR - escritor argentino

Quando eu era garoto, colecionava pôsteres do universo. Vinham como encartes de uma revista. Galáxias, supernovas, buracos negros, estrelas vermelhas... Ali, aprendi a admirar o que está de fora desta bolota azul como a prova do acaso humano, do absurdo de estarmos aqui por essas bandas. Aprendi a aceitar nossa insignificância diante do cosmos (e, com a mesma força, o porquê de darmos tanta importância a nós mesmos). Somos esse pequeno segundo de imaginação perdida no tempo, pregados e quase caindo deste pedacinho de terra e água que perdura pela imensidão...
O tempo correu. Muito tempo até poder me encontrar de novo com essa sensação de mistério pelo mundo, pela vida; por mim até. Minha fé estava rala, pois não há fé sem a presença de um enigma. Foi num dia 13 de janeiro, com mais dois sonhadores, que me reencontrei com essa idéia original, com essa espécie de encantamento. Neste dia, partimos do Brasil para explorar superlativos pela América do Sul. Não sabíamos o que iríamos encontrar. Não sabíamos se iríamos voltar. Mas fomos. Porque é isso o que importa. Ir. Só ir.
Com três bicicletas, como crianças que aprendem a andar e a virar esquinas, contemplamos o que antes era só imaginável: montanhas de gelo; desertos salgados; céus sem nuvens; lagunas coloridas; pôr do sol entre tempestades; vales sagrados; paisagens lunares; mergulhos gelados; o prazer de um banho quente; o sabor de um ovo frito; a novidade de ver a borracha espremer a neve... Vimos cidades perdidas no tempo; ruínas sagradas de templos erguidos perto das nuvens. Ficamos encantados com os olhos negros das pequenas crianças nos colos de suas mães. Ao redor e tão perto, plantações de flamingos, pastagens de lhamas. Sob os pés, um chão que refletia o céu num salar sem fim. Na memória ainda, a falta de ar e o frio a 4.622 metros de altura, perto de um vulcão sonolento, para que duas horas depois os 40º C do deserto mais seco do mundo sapecasse a pele como o frio havia feito. Ali, entre o exótico e o excêntrico, entre o intocável e o surpreendente, o receio de que a vida não pudesse ser de novo tão fácil, tão simples.
A realidade é a fuga dos que não querem (ou ainda não podem) ir aonde eles realmente estão. A bicicleta foi a possibilidade de irmos onde somos afinal. E eu me lembrava e repetia a bendita frase: “Quando foi a última vez que você fez alguma coisa pela primeira vez?”. Esse prenúncio do novo martelando a cuca, fortalecendo a vontade de ser para sempre aquela mudança, enquanto disparávamos a cada giro.
Em nosso caminho, vimos uma natureza selvagem. E não queríamos bolinar essa aura que ainda prevalece por lá, em algum lugar entre os Andes e o Pacífico. Viajar foi um expansor sensorial potente. Voltamos com as mochilas cheias de bons momentos. Imagens que hoje despertam presságios de uma nova viagem. O mundo é um lugar grande e há sempre um roteiro novo onde podemos ir nos perder ou nos encontrar.
Não há lição nem ensinamento. Não há um sentido a ser deixado. Fomos; voltamos. E descobrimos que uma viagem não é feita nesse intervalo. Todo significado residia nessa presença acanhada, nessa ocasião onde um mistério encontra a contemplação. Disso, percebemos, é feito a fé e as coisas belas de se ver. É isso que faz com que as coxas fiquem bambas.
E daí, você entende. Lá, atrás dos montes e das lagoas, dos desertos e das planícies, não é o outro que você encontra. Mas aquele mesmo que queria abandonar ao partir. E desse encontro você tem a oportunidade de fazer as pazes com essa familiar presença, que irá te acompanhar em todas suas visitas. Você renova a fé em si mesmo. Talvez seja isso o que importa: acreditar na gente.
Por receio de que ninguém fosse por nós, fomos. De alguma forma, vá também. Entre sonhar e partir, ficamos com o segundo. Qualquer sonho sem um passo é só um delírio. Mas se você der o primeiro, já não precisa sonhar. E ao partir, você descobre também que tudo o que sempre disseram sobre o mundo estava errado. Quando é você que está lá, tudo ganha um olhar novo. Então, dispare. Vá atrás dessa sensação inexplicável de que há algo intocável no ar. Algo para o qual não há resposta possível. Experimente começar, viver esse mistério e daí você compreenderá aquilo pelo qual os olhos, como as estrelas do céu, nunca deixam de brilhar. Daí você finalmente encontrará parte desse outro que perseguimos desde criança.

Por Renato Cabral, expedicionário do Projeto Os Coxas Bambas.
Conheci o Renato Cabral através dos seus textos ácidos no meu blog de cabeceira, o bicho de goiaba, e me tornei, imediatamente, sua fã. Fiz um pedido pra ele fazer um texto especial para meu blog, inspirado na sua viagem dos coxas bambas pela américa latina (meu deu uma vontade de fazer uma também). Meu pedido foi prontamente atendido, fiquei muito feliz de ter suas palavras nessa nosso cantinho virtual.


Comentários

  1. "Tudo que é bom, reaparece".
    Esta frase se encaixa com este retorno da Luciana em minha vida, já que alguns anos atrás trabalhávamos juntas.
    O texto de Renato Cabral é maravilhoso, ainda mais, sobre a experiência da viagem acima.
    Portanto, obrigado pelas palavras descritas no texto. + 1 vez sensação inexplicável!

    ResponderExcluir
  2. oi Naiara,
    poxa... que bom que pensa assim, fico feliz, também estou amando reencontrar você numa fase das nossas vidas em que estamos tão melhor do que antes, em muitos aspectos.
    costumo dizer que na vida nunca devemos fechar definitivamente portas por onde passamos, é bom poder entrar e sair delas sempre.
    Uma das grandes verdade bíblicas diz que colhemos o que plantamos, então é muito gratificante plantarmos coisas boas e agradáveis, estou colhendo com você.
    bjs
    Lu

    ResponderExcluir

Postar um comentário