Minha nota de suicídio.

Mais um ótimo texto do Renato Cabral. Forte e emocional como só os textos dele conseguem ser. A sensação é meio tapa na cara, mas me fez um bem danado.

Foto tirada por meu pai, em 84. Eu e meus irmãos no quintal, sujos de terra.

Nenhum testemunho final dará conta do que foi uma vida. Assim como nenhum relato do fim poderá explicar uma existência que acaba. Quando vocês estiverem lendo isso, eu já não estarei…

Das coisas da minha infância, me lembro dos cantos. Era onde me sentia seguro e confabulava contra o mundo, mastigando minhas dimensões ocultas e ruminando as pontes para o outro lado. Toda a quântica deve muito às crianças. Talvez sejam isso os universos paralelos que os físicos tanto apontam o dedo: a brincadeira solitária de um moleque entretido com sua distração.

Sempre me perguntei se era possível contar nossa história por meio daquilo que deixamos nos outros, dos poucos amores ou amigos. Daqueles com quem atravessamos desertos salgados, comemos juntos na mesma mesa durante anos, ou simplesmente compartilhamos nossa angústia numa esquina. E me esbarrando nesse amontoado de gente, conhecendo suas cores, seus sonhos que ficaram pelas margens, o cheiro do seu hálito em mim e o desespero dos seus sorrisos é que descobri: só podemos contar quem somos por aquilo que nos tornamos graças à presença dos outros.

E me lembro dos meus irmãos. Meu irmão sempre me viu como um herói. Nunca disse a ele, mas ele deve saber: como voei alto com sua capa. Os melhores amigos são aqueles que podem passar uma eternidade em silêncio. E assim fomos nós. Minha irmã é a paixão que não terei por uma mulher. Por ser mais nova, me ensinou o pouco que sei sobre cuidar, sobre o medo de perder. Ela também não sabe: mas me deu o melhor presente de todos. Não devo ter filhos. Ainda bem que ela teve.

Para não morrer como um estufado de nada, um inchado de vazio, traço esta promessa de lembrar. Talvez esteja aí nossa única chance. Porque a existência não é esta prosa construída no presente, mas a poesia com que refazemos nosso passado. Se a vida vale ou não ser vivida eu não sei. Diante da lata de lixo e do estômago vazio, qualquer enlevo que vá além do beco é perda de tempo. Mas a gente sempre dá um jeito de dobrar a fome. Tudo para poder se perguntar entre uma esquina e outra sobre quem somos e por que estamos aqui.

Quem eu sou começou com meu pai. Só depois de sua morte fui entender o que era realmente ser um homem. E nunca é tarde para fazer as pazes com a covardia e mandá-la de volta. Poucas vezes me senti uma pessoa grande. As únicas vezes quando isso aconteceu era ao lado dele que eu estava. Aprendi com ele a maior das lições: nunca esqueça que construir um lar é menos ter uma morada e mais ter a chance de poder fugir para casa depois que você for visitar o mundo. Como ele era rico. Morreu sem nada para poder nos dar tudo.

Mas não é possível se tornar homem de verdade até que você conheça seu primeiro amor. O meu veio tarde, porque até minha ingenuidade demorou a chegar. Seu primeiro presente pra mim foi um cérebro de uma apis melífera. Depois fui saber que isso era uma abelha. Quando os anos que você viveu com alguém são maiores que a quantidade de brigas, você deve pegar tudo e guardar no mesmo vidrinho com os miolos da abelha, porque realmente vale para o resto dos dias. Foi minha primeira história. Foi a mais longa. Seria fácil dizer que ela sempre será a mulher da minha vida. Mas ela não é. Mas só por ela me tornei o homem da minha vida. Quando sua mãe morreu, chorei duas vezes. Uma porque perdi a amiga de tantos anos. Outra porque sua mãe era meu último laço com ela.

Aí veio aquela baixinha de cabelos lisos, tão pretos. Tão perfeita, tão irretocável que essa dádiva se tornou minha cruz. Nunca consegui entrar naquele palácio e aproveitar o banquete. Como um vira-lata, os lustres me assustavam e eu dava um jeito de procurar a companhia da Lua e do frio. De tanto amor misturado com descuido, adoeci. E o castelo feito de cristal se quebrou sobre mim. Após o fim, pensei pela primeira vez em me matar. Ainda bem que os apaixonados são tolos. Mas, acredite, meu blefe foi um dos mais sinceros “eu te amo” que já disse. Poucas vezes fui tão inteiro num instante só. E foi naquela noite em que a chamei para namorar. Talvez eu morra sem sentir isso de novo. Ela nunca soube disso. Já estava na hora.

Então, descobri que no escuro também é possível ser feliz. Lá, conheci um novo jardim. Ela era tão linda que nunca consegui soletrar seu nome; preferia chamá-la de Flor. Com ela tive a chance, enfim, de enlouquecer. Nunca fui tão livre. Nunca foi tão sofrido. Nunca fui tão desgraçado na sorte de ser eu. Ela foi mais que meu amor, que minha amante, que meu anjo da guarda. Foi minha parteira. E todas as noites uma de minhas preces vai para ela. Tudo porque um dia ela pegou na minha mão e me fez aceitar o que talvez seja o desafio de uma vida: olhar para nós sem máscaras. Um homem deve dizer “que pena” apenas uma vez. E eu digo: Flor, que pena não ter dado certo. Mas se há um conforto, é que ela dizia que temos ainda várias vidas pela frente. Como gosto de acreditar nisso…

E veio o tempo de ficar sozinho. Mas como é solitário estar só. E numa noite das mais qualquer, eu conheci a mulher que qualquer um gostaria de conhecer. Pela primeira vez não fui arrebatado de cara. Mas porque a vida já tinha me tirado a inocência, eu já tinha olhos para vê-la. E pela primeira vez minhas odes, poemas e serenatas me continham. Eram pra ela e não mais para mim. Pela primeira vez consegui começar a desaprender sobre aquilo que achava que era. Estava começando de novo de um jeito inédito. Nosso amor, como um soldado, teve que avançar de trincheira a trincheira; atravessar tudo o que a existência faz o favor de pôr no caminho pra nos dizer sobre aquilo que vale a pena. Fomos vencendo as bombas, os arames farpados e, um dia, sem acreditar, sem achar que era possível, nos amamos com tanta simplicidade e força que os poetas e os romances teriam vergonha. Pela primeira vez eu sentia algo maior que ciúmes. Sentia inveja toda vez que ela contava dos outros de sua vida. Era tão fácil ser feliz com ela que já não fazia sentido esperar por outras vidas. Para quê a eternidade quando já se está nela? Nunca tive a desculpa de dizer que ela era a paixão certa na hora errada. Por isso, já não tento entender o porquê desse barulho absurdo que fazemos quando estamos juntos e que só nós podemos ouvir de tão bonito que é. Morro com esta.

Hoje é o dia de minha morte. E pensar nisso é de uma tristeza tão sem nome, porque viver é uma diversão que a dor só faz aumentar. O que me faz lembrar das duas mulheres que não precisariam estar nestas lembranças: minha mãe, Ana; e a filha de minha irmã, Ana. A gente escolhe apenas uma mulher na vida para morrer junto. Mas escolher duas mulheres pelas quais você morreria é um milagre.

E se não existe os imortais, existe a imortalidade. E a imortalidade é essa graça do outro que conversa dentro de nós, que sorri com a nossa boca e se conserva por nossos dentes. E o eterno é poder ainda, e apesar de tudo, se alegrar por meio desses exageros. Toda existência é o momento definitivo de si mesmo, que apenas se alonga, se irradia ou se adia. É um sopro, que será esquecido um dia, uma centelha que nunca produzirá a faísca igual de uma nova chance. E por isso há tanta beleza em cada acerto ou deslize. Porque em tudo isso há a morte como a melhor testemunha de quem somos, desse único tiro que temos. Se saber morrer é a forma de aprender a viver, só vamos nos salvar no apocalipse de todos os dias. Por isso, hoje morro. Porque já é hora de começar a viver de verdade.

Que vocês saibam: encontrei a mão de cada um aqui dentro. E por isso não vou sozinho. Esta é minha carta de despedida. A hora de partir chega a cada instante. E, quando eu morrer, fiquem com esta breve nota, porque mesmo para uma morte involuntária, toda chance de despedida vale a pena. Quem sabe não nos vemos por aí de novo. Quem sabe…

Por Renato Cabral
@CabralDiz


















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