Doses necessárias de "loucura".


Imaginem a nossa cultura sem os modernistas, sem Oswald de Andrade e a sua Antropofagia, o Tropicalismo, o Teatro Oficina e o Cinema Novo. Aquela linearidade copiada de modelos estranhos à nossa natureza - parecida com uma receita de bolo, definindo o que pode e o que não pode - estaria ditando as regras até hoje, defenestrando dos salões os “rebeldes” desinteressados pelas regras, mas que, arteiros, queriam mostrar a sua arte. Convenhamos (em segredo): seria entediante à beça! 

Os “fora-da-lei” são comumente tachados de “loucos” e colocados às margens. No entanto, mesmo sem qualquer compromisso com a estética, sem os protocolos dos cerimoniais, conseguem por vezes tocar o que aquele tido por clássico não consegue, provocando lembranças, instigando a imaginação, apelando para o conhecimento através das inúmeras referências numa autêntica mixórdia onde é possível enxergar texturas distintas, produzindo variados sentidos. Tudo depende dos olhos, ouvidos e do gosto do freguês.

Não fosse o fato de os “3Loucados” terem um compromisso, o que de certo modo entra em rota de colisão com o que foi escrito até aqui, a proposta do trio passa exatamente pelo desapego aos manuais, a fuga incessante do retilíneo e a busca pela “loucura sadia”, onde todos se despem (não, não é influência do Zé Celso) dos preconceitos em nome de uma leveza de espírito. Daí o nome: cantam, contam, brincam. Vão de uma música de roda a Pink Floyd passando por Zé Ramalho e Léo Jaime. Não me espantaria se ouvir daqueles violões e vozes uma versão para a “Ária (Cantilena)” de Villa-Lobos seguida de “Pelados em Santos” dos Mamonas Assassinas. 

Com a elegância flagrante de Luciana Fernandes, o vozeirão e os óculos de Ricardo Lemos e a energia incontida de Ronald Mignone, de repente você se vê embalado pelo Vento Nordeste e vivendo de “Amor e Abacaxi” ou lembrando de alguma paixão antiga que deixou uma dívida enorme para você pagar numa loja de departamentos. Não é um espetáculo de “stand up”, nem um show de música, muito menos uma encenação. É tudo isso junto sem roteiro definido e, melhor, dando de ombros para os rótulos: podem ser maratimbas ou universais, provincianos ou vanguardistas. O tal compromisso dos “3Loucados” é um só: a diversão!


Victor de Moura (padrinho oficial dos 3Loucados).

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